Minhas mãos continuam frias aqui, mas o outono é mágico. Se tu soubesses como eu me sinto quando saio na rua e ouço aquelas pessoas conversarem numa língua indecifrável, às vezes, me pego imaginando um diálogo pra cada uma delas. Sabes que sou incapaz de narrar sem imaginar um interlocutor, então, toda vez que percebo o quanto minha vida mudou, penso em ti. E tem dias que eu sinto uma saudade tão grande que tu nem imagina. Nesses dias eu me pego imaginando o rumo que as coisas tomaram por aí, inventando uma história pra tudo o que eu deixei pra trás. Nunca deixei de gostar de inventar essas coisas. Faz tanto tempo que eu fui embora. Dia desses, passei a tarde vagueando pelas ruas, acendendo um cigarro no outro e respirando o ar úmido que me gelava as narinas, e, quando anoiteceu, fui tomada por um sentimento confuso, não sei se saberia te explicar, não sei se tu já sentiu o mesmo, mas lá estava eu, no cais, vendo o céu escurecer de mansinho, sem pensar em nada e ao mesmo tempo, pensandoem tudo. Não sei te dizer se felicidade dói assim na gente, mas naquele dia, ela me doeu. Espero que ela te doa um dia desses também. Tu sabes que eu nunca acreditei nessas coisas que a gente sente pela metade.

Essas ruas daqui parecem vivas. Tem tanta coisa aqui que tu deveria conhecer. Desculpa se te abandonei indo embora daquele jeito, mas tu me conheces, sabes que eu não ia mais aguentar tudo aquilo. Eu precisava ir embora, me conhecer, me descobrir, reinventar, seilá. E aqui, eu me redescubro todos os dias. Espero que um dia tu me entendas.

Vê se te cuida aí. Essa cidade consegue ser sufocante quando quer.

Beijo.

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não vou esconder que não sou louca por morangos, mas anteontem, tive vontade de comê-los, então, abri a geladeira e me deparei com isso:

metáforas são mesmo coisas engraçadas..

sing me something new

ciclos são coisas difíceis.

é estranho se perceber uma pessoa diferente da que se estava acostumado a ser. é estranho se olhar com os olhos de antigamente.

ser mutável significa abdicar do controle, e abdicar do controle significa abandonar uma zona de conforto. nunca antes eu havia me deixado levar, a menos que eu soubesse para o quê, diz lispector num livro que eu acredito não estar pronta para ler por inteiro, já que sempre há uma força que me impede de avançar ao segundo capítulo.

talvez g.h esteja certa. talvez eu precise deixar de ser quem eu era, pra me transformar em quem eu sou.

do you still think that love is a laserquest?

dia desses ouvi, entre uma música e outra, uma conversa entre três caras, falando sobre a vida em uma agência de publicidade. acredito que um deles reclamava que não conseguia se acostumar com toda aquela rotina, e então o outro rebateu : “depois de seis meses já é parte da tua vida”.

e eu fiquei lá, com a verdade no colo.

mas então, eu me pergunto: como eu deixei as coisas chegarem a esse ponto?

cansei de perder o controle.

cansei de perder a poesia.

cansei de perder.

cansei.

acossado e a nouvelle vague – primeiras impressões

O marco inicial da nouvelle vague foi a minha escolha para a madrugada de segunda-feira, e acredito que seja impossível me arrepender dela. Minha primeira impressão foi a de mergulhar num mundo desconhecido. Ao contrário do que eu pensava, Acossado (a bout de souflle), de Jean-Luc Godard é um filme leve, daqueles que se tem vontade de assistir várias e várias vezes.

Confesso que o enredo do filme não é tão denso quanto eu esperava. Não posso considerá-lo fraco também, já que ele é apenas pano de fundo para a construção das personagens principais e seus fantásticos diálogos, que, em minha opinião, são o ponto alto do filme.

Ainda falando sobre os diálogos, é impossível não se surpreender ou se identificar com alguns deles, sempre recheados de metáforas e de uma profundidade – arrisco a dizer também de uma procura – que parece ser parte dos personagens e da forma com que eles levam – e questionam – a  vida. 

Patricia, a personagem de Jean Seberg, empresta ao filme toda a sua leveza e sensualidade, e devo dizer que me apaixonei por ela, em especial por sua atitude, cheia de sensualidade e apelos subentendidos.  Finalmente pude entender o porquê das mulheres da nouvelle causarem tamanho frisson. O figurino também é apaixonante e tornou-se coqueluche entre as parisienses após o lançamento do filme. Listras, delineador  e a camiseta do New York Herald Tribuneconstroem a sensualidade dissimulada que se torna marca da personagem. 

Confesso que os aspectos técnicos que deram fama a Godard me passaram batido, embora a forma com que a história se desenrola – fugindo do clássico início, meio e fim – seja fantástica. Godard consegue transformar cenas aparentemente banais em poesia, e o faz a todo o momento, fazendo o espectador se reconhecer na situação a cada nova cena.

Em outras palavras, o filme é apaixonante, dono de uma sensibilidade única, presente nos menores detalhes. Digno do título de obra-prima. Isso sem contar com a montagem do trailer, que é genial.

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Curiosamente, após assistir o filme, fui tomada por uma vontade enorme de ouvir Shout Out Louds, e tive a impressão de que ambos combinam muito bem. 

Como você sabe que eu tenho medo?

Uma mulher que diz que está tudo bem e não consegue acender o cigarro, tem medo de qualquer coisa.

Não sei de que, mas tem medo.